Estudo da Vigilantes by Galileu valida a detecção de ronco por celular

Roncar é tão comum que virou piada de família. Investigar o ronco quase nunca acontece.

Essa distância tem tamanho. Cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo convivem com apneia do sono, e cerca de 80% dos casos não são diagnosticados (The Lancet e American Academy of Sleep Medicine). Em São Paulo, a prevalência estimada de apneia é de cerca de 37% (EPISONO, Journal of Sleep Research, jan 2026).

Um trabalho da Vigilantes by Galileu, apresentado no 30º Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica (CBEB 2026), em Fortaleza, olha para essa distância. É o primeiro artigo completo da empresa aceito para publicação em anais de congresso da área, e se junta aos quatro resumos indexados sobre o programa já publicados em periódicos como a Sleep, da Oxford Academic, e a Sleep Medicine, da Elsevier.

Por que tanta gente fica sem saber

Quem fecha o diagnóstico de apneia é a polissonografia. É o exame padrão-ouro: uma noite monitorada, com sensores, e a leitura de um profissional. Ele funciona, e nada do que vem a seguir substitui isso.

O que trava é a distância até ele. A polissonografia exige encaminhamento, agendamento, estrutura e vaga. Diante de uma população desse tamanho, vaga é justamente o que não sobra. Na prática, quem chega ao exame costuma ser quem já tinha um quadro evidente, ou quem teve acesso para insistir.

A pergunta do estudo

Daí a pergunta que o trabalho tenta responder: dá para usar o celular que a pessoa já tem para ajudar a decidir quem deveria fazer o exame?

A proposta é modesta de propósito: ouvir a noite e sinalizar. Uma triagem que roda sem equipamento adicional pode ser feita por muita gente ao mesmo tempo. Serve para indicar quem apresenta sinal suficiente para valer uma investigação profissional. Hoje a fila do exame se organiza em boa parte por quem descobriu sozinho que deveria entrar nela. Com triagem, ela pode se organizar por evidência.

É o mesmo raciocínio de qualquer triagem em saúde. Ela organiza quem chega primeiro a quem decide, e a decisão fica com o profissional.

Do laboratório para o quarto

Detectar ronco por celular tem duas partes, e a segunda é a difícil.

A primeira é treinar um modelo que reconheça o som do ronco em uma base de áudio organizada. A segunda, que é a do trabalho, é fazer esse modelo continuar funcionando no quarto de uma pessoa de verdade: com ventilador ligado, ruído de rua, mudança de posição durante a noite, o celular apoiado perto do travesseiro e o aparelho que ela já tem em casa, não um equipamento de laboratório. É o que a expressão real-world validation, no título do estudo, descreve.

Não basta desenvolver tecnologia em saúde. É preciso demonstrar, com dados, que ela funciona no mundo real. Um modelo que acerta em base limpa e erra em quarto real não ajuda ninguém, e o estudo mediu essa queda. Os primeiros modelos testados, de aprendizado de máquina clássico, acertaram mais de 90% na base organizada e caíram para uma faixa de 55% a 67% de acerto nas gravações feitas em casa (Figueiredo et al., 30º CBEB, 2026).

O que o estudo encontrou

A segunda abordagem partiu do YAMNet, uma rede neural do Google treinada para reconhecer centenas de categorias de som, e a adaptou para uma pergunta só: este trecho é ronco ou não é? O treino usou apenas bases públicas de áudio.

O teste usou 600 trechos de áudio gravados nos celulares pessoais de 23 participantes, em 31 noites, em 17 aparelhos Android e 6 iPhones, todos revisados um a um pela equipe. Nenhum desses trechos foi usado no treino.

Nesse teste, o modelo acertou 93,83% das classificações, com intervalo de confiança de 95% entre 91,62% e 95,49%. Reconheceu como ronco 92,1% dos trechos que eram ronco, e reconheceu como outro som 94,9% dos trechos que não eram (Figueiredo et al., 30º CBEB, 2026). Dos 600 trechos, 563 foram classificados corretamente.

Ventilador, respiração forte e ruído de rua foram os sons mais confundidos com ronco. O ronco que passou despercebido era, em geral, baixo ou misturado a outro barulho.

O modelo roda inteiro no celular, com 14,4 MB. Os trechos sem ronco são descartados na hora, e o áudio da noite não segue continuamente para um servidor.

Pôster do estudo no 30º CBEB, enviado pelo Lucas, com a matriz de confusão (353, 19, 18 e 210). Legenda da imagem: "Pôster apresentado no 30º Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica, Fortaleza, 2026."

O limite, dito com todas as letras

Ronco é um sinal de risco, não um diagnóstico. Uma triagem estima risco e aponta quem deveria procurar avaliação. Ela não substitui essa avaliação, não dispensa a polissonografia e não diagnostica apneia. Quem fecha o quadro é o exame, lido por um profissional.

Os 93,83% medem o acerto em dizer se um trecho de áudio é ronco ou não. Não medem o acerto em identificar apneia. O estudo não comparou os resultados com polissonografia, e a referência de cada trecho foi a escuta da equipe. Os próximos passos descritos pelos autores são estes: comparar com o exame e medir o desempenho por noite e por pessoa, em grupos maiores.

Este estudo é de áudio. Ele não trata da triagem de apneia por imagem facial, que é outra tecnologia, com outra base de validação. A tecnologia do estudo já está no aplicativo: é o monitor de ronco, parte do monitor de sono, que identifica o ronco durante a noite com o processamento feito no próprio celular.

Ciência com transparência

O artigo foi apresentado no congresso e aceito para publicação nos anais do evento. Até a disponibilização do volume final ele não tem DOI, e a conta de trabalhos publicados sobre o programa segue em quatro resumos indexados.

Assinam o artigo, com o Lucas, Josimar Chire Saire, Giovana Contarelli Lamonica, Danielle Urazaki, Dalva Poyares e Laura de Siqueira Castro, pesquisadores da USP, da UFSCar e da UNIFESP. O estudo foi financiado pelo programa PIPE, da FAPESP, com apoio do SEBRAE for Startups.

Medir, validar e publicar faz parte de construir o produto. A Vigilantes by Galileu leva os resultados do programa a congressos e periódicos no Brasil e no exterior desde 2021, e este trabalho aproxima esse histórico da engenharia biomédica.

O congresso aconteceu em Fortaleza entre 28 de setembro e 2 de outubro de 2026. Foi a 30ª edição do evento e a primeira realizada no Nordeste em quatorze anos.

Um primeiro passo, do tamanho certo

Observar melhor o que acontece durante o sono é um jeito de reconhecer situações que, de outra forma, passariam despercebidas por anos. O que está em jogo é encurtar a distância entre quem tem um sinal e quem sabe o que fazer com ele, sem substituir exame nem avaliação médica.

Se você ronca, ou dorme ao lado de quem ronca, vale levar essa informação a um profissional. O ronco diz alguma coisa sobre a sua noite, e quase ninguém usa o que ele diz. O monitor de ronco ajuda a registrar essas noites para levar à consulta.


Sobre o autor: Lucas Baraças Figueiredo é engenheiro e CEO da Vigilantes by Galileu. É coautor de um dos quatro resumos indexados sobre o programa, publicado na revista Sleep, da Oxford Academic, em 2021, e autor principal do artigo de detecção de ronco por smartphone apresentado no 30º Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica, 2026. Conduz pesquisa com o programa na USP. Não faz atendimento clínico, e este conteúdo não constitui orientação clínica individual.



Fontes

  • Figueiredo LB, Chire Saire J, Lamonica GC, Urazaki D, Poyares D, Castro LS. "Deployment-Oriented Smartphone Snore Detection Using Transfer Learning and Real-World Validation". 30º Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica, Fortaleza, 2026. Aceito para publicação, sem DOI até a publicação. Sustenta: 600 trechos, 23 participantes, 31 noites, 17 Android e 6 iOS, 93,83% de acurácia (IC 95% de 91,62% a 95,49%), 92,1% de sensibilidade, 94,9% de especificidade, 563 acertos, 55% a 67% dos modelos clássicos em gravação real, 14,4 MB, análise dos erros e limitações. Financiamento PIPE-FAPESP, processo 2021/12139-0, e SEBRAE, processo 2021/15074-6.

  • The Lancet e American Academy of Sleep Medicine: cerca de 1 bilhão de pessoas com apneia do sono no mundo e cerca de 80% dos casos não diagnosticados.

  • EPISONO, Journal of Sleep Research, janeiro de 2026: prevalência estimada de apneia em São Paulo, cerca de 37%.

  • 30º Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica, Fortaleza, 28 de setembro a 2 de outubro de 2026, Fábrica de Negócios, Hotel Praia Centro.

  • ANVISA, registro de dispositivo médico digital, SaMD Classe II, 82207710008.

    Vigilantes by Galileu é um programa de mudança de hábitos em sono, mente, corpo e dinheiro, com registro na ANVISA como dispositivo médico digital, SaMD Classe II, registro 82207710008. Este conteúdo não substitui o diagnóstico, o cuidado ou o acompanhamento de médicos e psicólogos.

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